Jorge Wilheim: um homem que pensava a cidade

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Categoria: Na academia

O trabalho de Jorge Wilheim teve significativas contribuições para o campo disciplinar do urbanismo e do planejamento urbano. Nada mais oportuno do que comemorar o legado do seu trabalho nesse evento, que se realiza no dia mundial do Meio Ambiente, pois Wilheim sempre compreendeu o espaço urbano e o meio ambiente de forma sistêmica, sendo esta uma abordagem que permeou diversos dos seus trabalhos. 

Para celebrar o legado de Wilheim, gostaria de destacar três aspectos que permearam as reflexões e a atuação do arquiteto e urbanista e que podem contribuir ao enfrentamento dos atuais desafios que se apresentam para o planejamento urbano. Nesse sentido, essa breve reflexão estrutura-se a partir de três habilidades que foram inerentes ao trabalho de Jorge Wilheim e que podem nos inspirar a construir outras formas de intervir e pensar as cidades. 

A primeira delas consiste na habilidade que Jorge Wilheim tinha de interpretar a cidade, ou seja, “ler” o espaço urbano e compreender o objeto do seu trabalho. 

Essa habilidade, demonstrada ao longo de sua trajetória profissional, é um importante legado da sua forma de compreender o urbano e desenvolver propostas, alternativas e possíveis soluções às questões que se apresentavam, o que nos possibilita uma reflexão para o momento atual. Essa reflexão envolve nos questionarmos se estamos fazendo as perguntas corretas, ou seja, estamos sendo capazes de compreender, de forma adequada, os fenômenos e processos presentes no espaço urbano. O enfrentamento, muitas vezes inadequado às questões urbanas, estaria em propostas mal formuladas ou mal executadas, ou na identificação equivocada dos problemas e potencias urbanas? 

Jorge Wilheim tinha a capacidade de interpretar a vida e a experiência das pessoas nas cidades, o que propiciou inúmeras oportunidades de realização do seu trabalho, em diversos lugares, além de possibilitar as inovações e as mudanças de paradigma que fizeram parte do escopo do seu trabalho.

Wilheim comentava em seu texto mais recente, Cidade para Tempos Novos: urbanismo e planejamento no século XXI**; que sempre houve oportunidade para inovar e que essas inovações eram resultado da percepção do óbvio, seguidas de uma reflexão e tradução em propostas de ação. 

Sua atuação em Curitiba, para elaboração do Plano Preliminar de Urbanismo, de 1965, ocorreu após o Plano Agache, primeiro plano formal, proposto em 1943, que, essencialmente, estruturava a cidade a partir de avenidas perimetrais e radiais. Como concepção, o Plano Agache ficou restrito às proposições da área definida como urbana à época, sem considerar áreas adjacentes. Além desse fato, no período de 30 anos, a população cresceu de forma expressiva, surpreendendo as expectativas previstas no Plano que consideravam um crescimento demográfico de 2,5% ao ano, enquanto que a taxa real foi de 7,4% entre 1950 e 1960 (GARCEZ, 2006)***. 

Portanto, no início dos anos 1960, percebeu-se a necessidade de reformular as diretrizes de planejamento de Curitiba, adaptando-as às transformações sociais vividas na cidade nesse período. Nesse momento também, em 1962, teve início o curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Paraná, o que contribuiu para a criação de uma massa crítica local, em relação as questões urbanas. 

Nesse contexto, Wilheim considerava, por meio da sua percepção da cidade, que não se tratava de projetar uma cidade nova e sim intervir naquela existente. O desafio consistia, portanto, em interpretar a cidade, suas características, seus problemas e potencias, para então, avaliar quais seriam as possibilidades e as diretrizes que deveriam orientar o seu crescimento. O novo plano também consistia em propor o formato de um planejamento contínuo e sustentável, conceito de vanguarda para a época.

Dessa forma, avaliando a proposição de Curitiba, podemos verificar outro legado importante que permeou o trabalho de Jorge Wilheim e que consiste na materialização das diretrizes planejadas no território. Este aspecto se apresenta como um dos grandes desafios do planejamento urbano, que corresponde a implementar, na prática, as ações e propostas que foram discutidas e que são desejáveis para a cidade. 

O Brasil tem um dos arcabouços normativos urbanísticos mais avançados do mundo, sobretudo a partir da aprovação do Estatuto da Cidade, em 2001, que estabeleceu as diretrizes gerais da política urbana. Entretanto, há um distanciamento entre o que de fato se prevê nos planos e, consequentemente, nas normativas urbanísticas, e aquilo que realmente se executa no território, o que está, por vezes, distante das ideias registradas nos planos e distante das reais necessidades da comunidade. 

Um dos grandes legados do trabalho de Wilheim, sobretudo para Curitiba, diz respeito a concretização das diretrizes planejadas, em 1965. Curitiba é reconhecida internacionalmente por suas práticas de urbanismo, sobretudo pela utilização de um modelo de ocupação urbana fundamentado na relação entre uso do solo, sistema viário e transporte coletivo. Essa concepção possibilitou a implantação do BRT, um sistema inovador que foi reinterpretado em diversos municípios no Brasil, além de outros países. Este exemplo de inovação esteve alinhado à valores de desenvolvimento sustentável, capacidade de deslocamento a baixo custo, sendo, portanto, solução aplicável em países desenvolvidos ou em desenvolvimento 

Esta abordagem foi inserida a partir do Plano Preliminar de Urbanismo proposto em 1965, quando se adotou um modelo linear de expansão urbana com o objetivo de orientar o processo de crescimento da cidade de forma ordenada, a partir da integração das funções do sistema viário, transporte coletivo e uso do solo. A partir de então, o desenho urbano de Curitiba evidencia o aspecto conceitual desta proposta, ao prever maior densidade de ocupação ao longo dos eixos estruturais da cidade, os quais comportam o espaço destinado a circulação do sistema BRT. 

Além disso, o plano proposto também previa a construção de grandes parques, a revitalização do centro, a industrialização, o zoneamento urbano, a regulação do solo, a melhoria da circulação urbana e a criação de vias estruturais, entre muitas outras iniciativas inovadoras. Nesse momento, Wilheim também indicou um aspecto que foi fundamental para a concretização do plano, que correspondeu a formação de um grupo local para acompanhar o Plano Preliminar de Urbanismo, capaz de se tornar um núcleo permanente de planejamento urbano. Foi esse grupo que deu origem, em 1965, à Assessoria de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (APPUC), composta por uma equipe multidisciplinar, que mais anos mais tarde, possibilitou a criação do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC).

A partir dessas explorações, me encaminho para a terceira habilidade de Wilheim anunciada no início desta reflexão e fundamental para a qualidade do seu trabalho: a crítica permanente ao planejamento e sua concepção como ato contínuo. Nos anos mais recentes, observa-se que Jorge Wilheim, que foi um grande entusiasta dos Planos Diretores, repensava qual deveria ser a nova estrutura desse importante instrumento de planejamento. A elaboração de um plano deve ser capaz de considerar a interpretação adequada de uma realidade urbana para, a partir de então, realizar uma prospecção de quais são as possibilidades de futuro possíveis e desejáveis. Para tanto, deve partir da premissa de que envolve um processo de debate coletivo.

No entanto, observamos a necessidade de um debate sobre a capacidade dos Planos Diretores, em seus atuais formatos e conteúdos, serem capazes de darem respostas efetivas às questões que se apresentam nas cidades. São muitos os desafios postos: déficits habitacionais e de infraestrutura, padrões complexos de ocupação do solo que resultam em processos de dispersão espacial e configuração de periferias mal servidas, saturação do modelo de mobilidade predominante, entre outras questões, que acabam por gerar espaços segregados e fragmentados, refletindo no espaço a desigualdade social do país. Entretanto, a questão inicial permanece: como o Plano Diretor, sendo um modelo também normativo, pode apreender tal dinâmica e complexidade urbana? 

Algumas questões deveriam permear a construção dessa nova estrutura de planejamento e, a concepção do trabalho de Jorge Wilheim pode nos dar importantes contribuições nesse sentido. Inicialmente, há que se considerar a necessidade de estruturação de um planejamento que tenha orientação sistêmica e esteja vinculado a projetos concretos de desenvolvimento urbano. 

Portanto, é de fundamental importância melhor conhecimento do objeto urbano, dos processos presentes nesse espaço. Para tanto, para se pensar em futuros possíveis e desejáveis em uma cidade que está em contínua transformação, há que se considerar a importância da formação de futuros profissionais, arquitetos e urbanistas, capazes de intervir nessa realidade; além da relevância da pesquisa sobre o espaço urbano, que possibilite análise crítica e acesso à informação de qualidade para a tomada de decisão. Ressaltam-se as pesquisas desenvolvidas no campo disciplinar do planejamento urbano no âmbito da Universidade Pública e que fomentou, em grande medida, as iniciativas de reforma urbana e construção dos avanços que tivemos nos últimos anos no debate urbano. Essas questões, além de outras que poderiam ser elencadas, são essenciais para a construção de outras perspectivas e possibilidades, como o que Jorge Wilheim fez de forma virtuosa na década de 1960. 

Além disso, sendo a cidade um produto social, é imprescindível ampliar a discussão e debate com a comunidade sobre o objeto urbano, ou seja, uma cidade que é de todos, deveria considerar toda a comunidade em seu processo de discussão. Eventos como esse são de extrema relevância para celebrar o legado deste importante arquiteto e urbanista, Jorge Wilheim, e também para nos inspirar para a construção de novos futuros possíveis e desejáveis. 

Profa. Dra. Letícia Nerone Gadens (Universidade Federal do Paraná – UFPR). Artigo apresentado em palestra realizada na audiência pública de homenagem à Jorge Wilheim, promovida pelo Mandato Goura, na Assembleia Legislativa do Paraná, em 05 de junho de 2019.

**Wilheim, Jorge. Cidade para Tempos Novos: urbanismo e planejamento no século XXI. Cadernos de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, v.8, n.2, 2018, p.6-23.

***Garcez, Luiz Armando. Curitiba: evolução urbana. Curitiba: Imprensa Universitária UFPR, 2006.

 

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