Uma amizade de setenta anos

Compartilhe

Categoria: Gaveta da memória

Adolescência

         Em 1940, Giorgio Wilheim e Mario Franco éramos dois garotos italianos, judeus, de 11/12 anos, cujas famílias haviam vindo da Itália em conseqüência das Leis Raciais promulgadas em 1938 por Mussolini: os judeus expulsos de seus empregos públicos, das universidades e do magistério, das empresas privadas, das forças armadas. Seus filhos barrados das escolas. Prenúncio da tragédia que viria anos depois, com a deportação de mais de 7.000 italianos judeus para os campos de extermínio nazistas. A família do Giorgio e a minha sofreram então dolorosos lutos.

         Com 15/16 anos Jorge e eu participávamos de pequeno grupo de amigos, entre os quais o francês Gérard Duchêne e os italianos Paolo Brentani e Tullio Seppilli. Reuníamo-nos para discutir longa e apaixonadamente o conflito mundial em curso e os temas políticos e filosóficos do momento. Logo depois de terminada a guerra, Jorge e eu fomos, acompanhando o amigo Tullio, a um comício-monstro do recém legalizado (mas foi por pouco tempo!) Partido Comunista Brasileiro no Estádio do Pacaembu, lotado. Lá estavam Luís Carlos Prestes (secretário do PCB) e o grande poeta Pablo Neruda que, diante da imensa multidão silenciosa, declamou os versos do seu esplêndido "Canto de amor a Stalingrado":

..........

"Guárdame un trozo de violenta espuma,

guárdame un sabre, guárdame un arado

y que los pongan en mi sepultura

con una espiga roja de tu Estado!"

..........

Um momento intenso. Impossível não se emocionar!

         Pouco tempo depois, o companheiro Tullio Seppilli, com quem Jorge e eu guardaríamos uma forte, importante e duradoura amizade, voltou definitivamente para a Itália levando uma carta de apresentação de Luís Carlos Prestes (já então na clandestinidade) para o então secretário do Partido Comunista Italiano Palmiro Togliatti. Sempre muito ativo politicamente, Tullio foi uma referência mundial no campo da Antropologia Médica. Manteve laços com a Universidade de São Paulo, e em função disso veio diversas vezes ao Brasil: outras tantas ocasiões para nossos renovados encontros a três.

         Em 1947 eu tinha 18 anos e estava no primeiro ano da Poli; Jorge tinha 19 e cursava Arquitetura no Mackenzie. Nesta época, o Prof. Pietro Maria Bardi estava começando a organizar o que viria a ser o "Museu de Arte de São Paulo". Na sede à Rua 7 de Abril (o vão livre da Lina estava ainda longe de ser construído) chegavam os quadros comprados pelo mecenas do Museu, o jornalista Assis Chateaubriand; eram encostados às paredes das salas e corredores da sede. Bardi organizou então um curso intensivo de História da Arte, destinado à formação dos futuros monitores do Museu. Inscreveram-se diversos intelectuais paulistanos e muitos artistas plásticos: Marcelo Grassmann, Vicente Mecozzi, Aldemir Martins...; e dois jovens estudantes: Jorge Wilheim e Mario Franco. As aulas eram peripatéticas; perambulávamos pelas salas parando diante de uma determinada obra de arte e ali Bardi dava sua aula: antiguidades greco-romanas, Fra Angelico, Velázquez, Rembrandt, Cézanne, Gauguin, Van Gogh... Foi uma maciça injeção de cultura que deixou marcas positivas e indeléveis em nossa formação estética. Mais tarde Jorge foi assistente do exigentíssimo Bardi, um cargo árduo mas, creio, muito edificante.

Maturidade

         Em meados dos anos 50, já formados e casados (Jorge com Joana, eu com Gabriella) costumávamos nos reunir com outros casais na residência dos amigos Thomas e Melanie Farkas. Lá estavam Pedro Paulo e Ana Maria Poppovic, Moisés e Yvonne Wainer e outros. Debatíamos apaixonadamente os temas políticos palpitantes do momento; pairavam no ar nomes como Stalin, Khruschov, Togliatti, Gide, Sartre...

         Essas reuniões terminaram abruptamente, com a entrada dos tanques soviéticos em Budapest. Foi uma amarga desilusão. Um jovem ativista que costumava participar de nossos encontros, suicidou-se.

Profissão

         Nesta época Jorge e eu já havíamos trabalhados juntos, ele arquiteto e eu estruturalista, em diversos projetos de edifícios. E na complexa e sofisticada residência Farkas, à Rua

Itaperuna. Em seguida veio a sede da Hebraica na Marginal Pinheiros, com seus grandes vãos e sua monumental escada auto-portante central.

         Pouco tempo depois, enfrentamos o grande desafio: o projeto do "Parque Anhembi". A primeira estrutura executada deste grande complexo foi a do imenso Palácio das Exposições. Jorge havia confiado o projeto estrutural, em treliça tubular espacial de alumínio, o engenheiro canadense Cedric Marsh, experiente neste tipo de estrutura. Esta seria (e foi) a maior obra desse tipo já executada no mundo. A firma brasileira encarregada da execução, Fichet-Schwartz Haumont, tinha modificado o projeto canadense substituindo as junções parafusadas dos nós, originalmente de alumínio e proibitivamente caras, por peças de aço; é claro que os engenheiros dessa empresa levaram em conta o aumento de peso decorrente dessa modificação. Mas o engenheiro canadense não estava à vontade com esta alteração de seu projeto. Jorge me contava que no dia da montagem, a estrutura já estava no chão, toda executada e pronta para ser içada: um grande mar de tubos de alumínio brilhando ao sol. O canadense, inquieto, que provavelmente jamais imaginara que seu arrojado projeto viria a ser efetivamente realizado, estava à beira do pânico. A estrutura foi sendo lentamente erguida por um grande número de paus de carga, para ser fixada aos suportes (espaçados 60m) já executados. Num certo momento, houve um aumento na intensidade do vento, e a estrutura, ainda no ar, começou a oscilar. O engenheiro canadense Marsh (tudo isso contado depois pelo Jorge) exclamou: "Oh my God! Stop! Stop! The structure will collapse!"  Naturalmente a operação não parou, a estrutura não colapsou e no fim da tarde estava firmemente ancorada aos apoios definitivos. Foi, creio, um dos momentos emocionantes, culminantes e merecidos da carreira do Jorge.

         O "Parque Anhembi" tinha outros setores: o Clube, o Hotel e a grande praça com o Palácio das Convenções.  O Clube foi devidamente projetado e detalhado, mas nunca saiu do papel. O Hotel, por sua vez, é uma torre alongada de 16 andares com 15m de largura e uns 120m de comprimento. Sua superestrutura é suportada por duas fileiras de pilares muito finos dispostos ao longo das fachadas, espaçados apenas 1,20m, formando uma "microestrutura"; esta por sua vez está apoiada num poderoso pórtico múltiplo com vigas protendidas e pilares espaçados 12x1,20=14,40m. Foi a primeira protensão de minha carreira. Esta transição é de fato uma poderosa e interessante escultura de concreto. A estrutura do Hotel foi executada somente até o sétimo andar e depois parou por falta de verba. O fantasmagórico esqueleto acinzentado ficou incompleto durante 30 anos; nos anos 2000, milagrosamente intacto, foi completado e tornou-se um Hotel Holiday Inn.

         O Palácio das Convenções constituiu um grande desafio, pois antes de mais nada era preciso determinar sua forma; foram dias de reuniões, e de "croquis" com lápis 6B, meus e do Jorge, indo e voltando. Num certo momento eu disse: "Quer saber, Jorge? Vou determinar matematicamente a curva ideal dessa cúpula. Dê-me 2 dias". Topou. Dois dias depois, lá foi o meu desenho para o Jorge. O telefone não tardou a tocar: "Mario, não dá! Ficou horrível. Parece um pudim!". Tinha toda a razão, era horrível. Voltamos às nossas pranchetas, e acabamos por substituir a "horrível" curva matemática por uma poligonal cujos vértices se situavam ora acima ora abaixo desta, de modo a minimizar os momentos fletores. Creio que de fato o desenho final ficou muito bom. Essa estrutura, em forma de "origami", é muito arrojada: com 65m de diâmetro sua espessura é de apenas 10cm. Ela resiste pela forma. O projeto estrutural foi realizado utilizando computador IBM com o novíssimo programa "Stress"; os dados eram introduzidos utilizando cartões perfurados. Os resultados impressos forneciam todos os esforços e deslocamentos, e previam que o centro subiria 15mm.

         Para a execução da cúpula, fora contratado um engenheiro especialista em estruturas de madeira, que projetou o cimbramento, usando em todos os pontos de apoio com o solo "caixas de areia": muito utilizadas então nas estruturas das grandes pontes, elas são caixas cilíndricas de chapa, abertas no topo e cheias de areia finíssima e muito seca, com um orifício junto ao fundo tampado por rolha de cortiça. Para iniciar a desforma, basta retirar simultaneamente todas as rolhas, a areia vai escorrendo e o escoramento desce suavemente, sem trancos. Bem, a casca estava concretada e curada, e chegou o dia da desforma. Mas então me telefonaram da obra: "A estrutura está rangendo, apareceram fissuras na parte de cima, e o centro  está baixando! Os operários recusam-se a continuar. Venha!" Lá fui eu à obra e, pasmo, vi que o cimbramento tão cuidadosamente estudado não havia sido executado de acordo com o projeto original (soube depois que devido a uma questão de...custo!) e a estrutura estava escorada num mar de pontaletes que precisariam ser retirados a marreta. Não restava mais do que indicar a seqüência correta da desforma e...ficar embaixo da estrutura! Aos poucos os operários, vendo-me ali, voltaram, e logo havia trezentos deles marretando furiosamente mas pelo menos na progressão certa. Depois de umas duas horas as fissuras haviam se fechado e o centro parara de descer. Voltei então ao escritório e no fim da tarde chegou o telefonema esperado: "Estrutura toda desformada, intacta, o centro subiu 15mm!!!" Jorge e eu comemoramos! Bem disse Guimarães Rosa; "Viver é muito perigoso."

         Depois do Anhembi, outro desafio: o "Centro de Cultura do Estado", a ser construído numa grande área da Cidade Universitária. Era uma série de construções modulares de grandes vãos, relativamente baixas, com um imponente núcleo central constituído por 4 grandes cubos de concreto, cada um com uns 45m da lado. O Jorge, sonhador, chamava esses cubos "as quatro caixas mágicas": dentro delas, de fato, aconteceria a magia de vários espetáculos, pois elas continham diversos teatros: de ópera, grego, experimental, de arena...A estrutura interna multipiso dessas caixas era extraordinariamente complexa, e foi resolvida com muitas pacientes reuniões minhas com Jorge e sua equipe; e com grande emprego da protensão. O projeto foi terminado e entregue à Secretaria da Cultura do Estado, inclusive fundações, mas...faltou verba! Foi, creio, uma grande mágoa para o Jorge (e certamente também para mim) não ver executada esta obra na qual tínhamos posto, além de nossa experiência e paciência, um pouco de nossas almas. Anos depois, uma minúscula parte do projeto acabou sendo executada. mas as "caixas mágicas" ficaram em nossos sonhos.

         Jorge e eu desenvolveríamos outros projetos: lembro-me da fábrica da Cori, depois projetamos a torre cilíndrica onde hoje está a Caixa Econômica, com seus imensos pilares tangenciais que funcionam também como "brise-soleil". Vieram o concurso (ganho) e o projeto (executado com a participação decisiva da Arq. Rosa Kliass) de Reurbanização do Vale do Anhangabaú em pleno centro de São Paulo, que foi outro ponto alto na carreira do Jorge como urbanista e como arquiteto.

         O último projeto no qual trabalhamos juntos, já nos anos 2000, foi um "Monumento às Vítimas do Holocausto: havia uma ponte simbólica que ia estreitando, de modo que cada indivíduo que a atravessasse chegaria inevitavelmente só ao seu destino...

Epílogo

         Jorge e Joana haviam planejado para Maio de 2014 um cruzeiro pelo Mar Adriático e Mar Iônio, cujo porto final seria Veneza. Como nesta época eu estaria de férias na Toscana com minha esposa Ilda, combinamos com Jorge um encontro nosso em Perugia, onde morava o Tullio, nosso amigo de sempre. Seria, quem sabe, nossa última reunião. Não aconteceu. Jorge faleceu a 14 de Fevereiro de 2014. Tullio nos deixou a 22 de Agosto de 2017.

         Às vezes gosto de pensar que talvez aquele nosso último encontro a três tenha sido simplesmente adiado para logo mais adiante...no fluxo da corrente da vida.

São Paulo, Setembro de 2017

Mario Franco

 

COMENTÁRIOS