Primeiro encontro | Ciclo Jorge Wilheim, o pensador de cidades

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Categoria: Eventos

Para tecer a memória e promover o legado no primeiro encontro do Ciclo Jorge Wilheim: o pensador de cidades, amigos, admiradores, colegas de trabalho e jovens estudantes universitários estiveram reunidos, no dia 22/08, no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc em São Paulo. Os convidados discutiram a importância de Jorge para o planejamento urbano no Brasil. Participaram dessa mesa Nabil Bonduki, professor de Planejamento Urbano da FAU-USP; Luiz Fernando Cruvinel Teixeira, arquiteto e urbanista responsável pela criação do Instituto de Desenvolvimento Urbano de Goiás e autor do projeto de Palmas(capital de Tocantins); e Rosa Grena Kliass, arquiteta e paisagista. A mediação foi realizada por Ivan Maglio, engenheiro e doutor em saúde ambiental, que atuou com Jorge Wilheim no Plano Diretor Estratégico de São Paulo de 2002.

O fio condutor das apresentações teve como ponto de partida algumas questões contidas no livro inacabado de Jorge Wilheim, Cidades para Tempos Novos, no qual se encontra um programa de desenvolvimento urbano para o século XXI, que poderia substituir a estrutura atual dos Planos Diretores. No momento em que preparava esse livro, em 2013, Jorge desenvolvia uma série de novas reflexões e se questionava se a estrutura básica do Plano Diretor corresponderia às necessidades de desenvolvimento e qualificação urbana deste século. Como a participação e a mobilização sempre foram importantes para ele, a família decidiu disponibilizar um trecho do livro inacabado no site O Legado de Jorge Wilheim. CONFIRA AQUI.

Segundo o mediador Ivan Maglio, que atuou na Secretaria do Meio Ambiente e no Plano Diretor de São Paulo de 2002 com Jorge, uma questão chave para o urbanista nos debates dos planos diretores era discriminar que o interesse público não é igual ao interesse de todos. Além disso, ressaltou o respeito de Jorge aos conhecimentos acumulados em planos anteriores, seu compromisso com as questões sociais e ambientais, com a mobilização de pessoas envolvidas no processo de construção dos últimos PDs. Os debatedores também foram provocados a discutir outra questão colocada no livro inacabado: o que seria a cidade do século XXI? Como produzir espaços urbanos mais saudáveis, mais próximos dos cidadãos?

A amizade de Rosa Kliass, arquiteta e paisagista, e Jorge Wilheim começou em 1955 e se estendeu por décadas de colaboração profissional. Na década de 1960, em uma época em que o planejamento das cidades ainda se consolidava no Brasil, Jorge se destacou como um dos principais urbanista do país e seu escritório foi contratado para elaborar o PD de Curitiba. Rosa teve uma importante colaboração neste projeto e enfatizou seus aspectos inovadores, como o fato de Curitiba ter sido a primeira cidade brasileira a receber um tratamento de áreas pedestralizadas. Jorge cunhou a palavra calçadão ao transformar parte da rua XV, no centro, em uma área para pedestres no Plano de 1965. Para isso, foi necessário um elaborado planejamento viário, que envolveu a criação de corredores de ônibus. Não se tratava, naquele momento, de projetar uma cidade nova e, sim, de intervir em uma cidade existente, em acelerado crescimento. O desafio profissional consistia em “ler” adequadamente a cidade, detectando suas características e problemáticas, e avaliar hipóteses de mudanças, escolhendo as diretrizes que pudessem orientar o seu desenvolvimento. O novo plano consistia também em propor o formato de um planejamento contínuo e sustentável, conceito que ganharia popularidade muitos anos depois.

Nabil Bonduki resgatou a história dos planos diretores de São Paulo e analisou a importância de Jorge na criação do PDE de 2002, logo após a institucionalização do Estatuto da Cidade, que estruturou e ampliou uma série de instrumentos e princípios urbanos. O primeiro contato de Nabil com Jorge, assim como muitos estudantes, foi pela leitura de suas obras. No caso, o clássico Urbanismo no subdesenvolvimento, que apresenta as questões mais significativos dos planos urbanísticos exemplares como o de Curitiba, Natal, Goiânia, Vale do Tietê, entre outros.

Nabil relembrou o protagonismo de Jorge nos debates que antecederam e criaram as bases para o Estatuto da Cidade e o PDE de 2002, que buscavam rever as experiências dos planos anteriores. Essas discussões, que ocorreram durante a luta contra a ditadura e a redemocratização, já plantavam uma série de princípios, diretrizes e formas embrionárias de participação pública nos planos diretores. Em 1963, o IAB realiza o primeiro Seminário de Habitação e Reforma Urbana e escolhe como relatores Jorge Wilheim e Joaquim Guedes. Trata-se de um marco, segundo Nabil, pois pela primeira vez os urbanistas sistematizam uma série de estruturas e argumentos para enfrentar a questão urbana no Brasil ,em várias bases. Ele destacou ainda elementos construídos ao longo dos anos e que se consolidaram no PDE de 2002, como os planos regionais, que permitiram ampliar aspectos pouco abordados pelo PDE devido à escala da capital paulista; e a introdução do coeficiente básico, que instituiu a cobrança da outorga onerosa.

Complementando a fala de Rosa Kliass sobre Curitiba, Nabil enfatizou alguns elementos fundamentais desse PD que valem ser recordados: a criação de eixos estruturais de transporte coletivo e de uso do solo, um conceito que ganha força em Curitiba, está presente também no PD de Goiânia e no PDE de São Paulo em 2002, e se concretiza de forma mais clara e efetiva no plano de 2014. Trata-se da ideia de associar os eixos estruturais de transporte coletivos, das vias segregadas para ônibus, com o adensamento do solo. Outra marca de Jorge no PD de Curitiba foi a defesa pela criação de parques, algo que faltava na cidade à época. Hoje, Curitiba é lembrada pelos fato de ter muitos parques.

Nabil destaca que Jorge se colocava contra as vias perimetrais, os anéis viários e os esquemas que cercam a cidade, pois acreditava que seriam fatalmente ultrapassados com o tempo, o que de fato aconteceu em São Paulo. Ele preferia procurar uma linearidade de expansão ao longo de certas diretrizes dominantes, espontâneas e fortemente marcadas, chamando essas diretrizes de vias estruturais e as identificando como uma estrutura viária. Este conceito supera a ideia dos anéis e trabalha com o crescimento linear com adensamento ao longo de um via estrutural, uma ideia que está presente no Plano Diretor de Curitiba e em alguns outros planos de Jorge nesse período. E, finalmente, o terceiro eixo estruturador que são os pólos de centralidade, centros secundários de atração que geram uma polinucleação urbana, elemento presente no Plano de Curitiba e de São Paulo de 2002.

Por fim, Luiz Fernando Cruvinel Teixeira colocou em evidência a experiência e o caráter mais humano que Jorge trouxe para o Plano Diretor de Goiânia. Em pouco tempo, o urbanista compreendeu e sintetizou todas as questões relevantes que determinaram a formação do espaço urbano dessa capital, uma cidade que havia sido planejada para abrigar 50 mil habitantes. Quando Jorge foi contratado para criar o PD, em 1968, a cidade estava com mais de 300 mil habitantes e estimava-se um crescimento continuado da população. Goiânia enfrentava algumas decisões difíceis referentes à diretriz que seria adotada para sua expansão: superar os entraves das estruturas que a limitavam a leste ou preparar amplo crescimento para oeste, estendendo o setor planejado? Diante desse desafio, Jorge e equipe criaram três cenários alternativos de expansão e os colocaram em discussão pública. Para além das tendências leste-oeste, numerosos conjuntos habitacionais de grande porte estavam sendo construídos sem outro critério que o da oferta de glebas, podendo vir a polarizar de forma caótica as expansões. Ao perceber que a cidade já estava se estruturando no sentido sudoeste, Jorge adota a alternativa de crescimento para oeste, propõe uma malha viária aberta direcionada e utiliza os conjuntos habitacionais de forma estratégica como elementos indutores desse plano, assim como uma ordenação de instrumentos e equipamentos públicos condizentes com esse esquema morfológico. Teixeira também destaca a visão política de Jorge para fortalecer o PD de Goiânia ao incentivar uma superintendência de planejamento urbano e a carta habitacional como um elemento de compromisso do Estado e da prefeitura.

Os convidados também discutiram como as linhas gerais do pensamento e atuação de Jorge Wilheim já estavam presentes desde a elaboração do Plano Diretor da cidade cafeeira de Angélica, no estado do Mato Grosso, em 1954, bem no início de sua carreira. Criada por uma empresa local da família Neder para abrigar a moradia de seus funcionários, Angélica ganhou um desenho inovador com o PD e significou também um salto qualitativo em conhecimentos e reflexões sobre a prática do urbanismo no Brasil. Carlos Neder, presente no encontro, foi chamado para uma participação especial ao final da mesa e ressaltou as qualidades de Angélica como um exemplo de cidade planejada, com quadras bem definidas, muitas áreas verdes e uma grande preocupação com a questão dos equipamentos sociais e as várias propostas de participação que ali já eram embrionárias.

O próximo encontro do Ciclo Jorge Wilheim acontece no dia 05 de setembro, às 19h e abordará as inovações promovidas na arquitetura e no urbanismo. A mesa contará com a participação de Rosa Kliass, Mario Franco, Marcia Grosbaum e mediação de Regina Meyer. As inscrições estão esgotadas, mas em breve será disponibilizado o resumo das falas dos participantes. Organizado pela socióloga Ana Maria Wilheim, filha do arquiteto, os eventos acontecem de 22 de agosto a 12 de setembro, às terças, e abrem uma série de celebrações pelos 90 anos de nascimento de Jorge Wilheim (1928-2014).

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