O legado de Jorge Wilheim (1928-2014)

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Categoria: Artigos

Por Nabil Bonduki*

Dois dias antes do acidente que vitimou o arquiteto e urbanista Jorge Wilheim, ele me visitou na Câmara Municipal trazendo contribuições para a revisão do Plano Diretor. Longe da aposentadoria, ele coordenava inúmeros projetos, entre os quais o plano urbanístico para a Jacu Pêssego, fundamental para São Paulo. Seu repentino desaparecimento é uma grande perda para a cidade e o país.

De origem judaica e natural da cidade de Trieste, na Itália, adotou o Brasil, onde se formou em 1952. Na década de 1960, coordenou vários planos diretores, como o de Curitiba, onde propôs a articulação entre transporte coletivo e o adensamento do solo, início de uma experiência urbanística inovadora. Seu currículo é repleto de projetos relevantes, mas facetas menos divulgadas de sua trajetória revelam que ele antecipou ideias que levaram anos para serem aceitas.

Mesmo os especialistas desconhecem o papel de Wilheim no Seminário de Habitação e Reforma Urbana (sHRu), promovido pelo Instituto de Arquitetos do Brasil, em 1963. Wilheim redigiu o documento final, propondo uma política habitacional articulada à reforma urbana, instrumentos para combater a especulação imobiliária e a criação de um conselho nacional de habitação, com representação da sociedade. O evento é saudado como a pedra fundamental da luta pelo direito à habitação e pela defesa da função social da propriedade, princípios somente incorporados à nossa legislação com a Constituição (1988) e o Estatuto da Cidade (2001).

Outra iniciativa pouco lembrada de Wilheim foi o fechamento do centro aos automóveis um dia por ano, proposta em 1987, quando secretário estadual de Meio Ambiente. A ideia antecipou o hoje comemorado Dia Mundial sem Carro e mostra que ele estava antenado em uma visão futura da cidade, onde o uso dos carros deve ser racionalizado.

Indicado secretário-adjunto da Conferência das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos, a Habitat II, realizada em Istambul em 1996, contribuiu para abrir o evento à participação da sociedade civil. Com essa configuração, o Habitat II consagrou, em termos globais, a concepção de que a participação da sociedade é indispensável para o urbanismo.

A experiência conjunta que tivemos na formulação e aprovação do Plano Diretor Estratégico em 2002, na gestão de Marta Suplicy, só fez crescer minha admiração por ele. Indicado como relator do projeto de lei por ele elaborado, juntos e com participação da sociedade e de nossas equipes, aperfeiçoamos a proposta em um substitutivo capaz de ser aprovado. Assim, São Paulo foi a primeira cidade do país a ter um Plano Diretor com os novos instrumentos criados pelo Estatuto da Cidade. A proposta de revisão que, no presente, debatemos na Câmara Municipal, dá sequência e aprofunda princípios que Wilheim havia muito vinha defendendo.

Embora ele não possa mais receber pessoalmente essa honraria, propusemos ao Legislativo, infelizmente com atraso, a concessão do título de cidadão paulistano. Assim, em breve, a homenagem que a cidade lhe deve será realizada na Câmara Municipal.

Ainda que muitas vezes tenha se frustrado com a não implementação de seus planos, Wilheim sempre acreditou no planejamento como um instrumento de transformação. Suas propostas urbanísticas expressas em planos, livros, artigos e palestras nos inspiram a dar continuidade à difícil tarefa de construir cidades melhores e mais justas.

* NABIL BONDUKI, 59, professor titular de planejamento urbano na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, é vereador em São Paulo pelo PT e relator do projeto de lei de revisão do Plano Diretor Estratégico na Câmara Municipal

** Artigo publicado originalmente na seção Tendências e debates do jornal Folha de S.Paulo, em 16 de fevereiro de 2014.

 

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