Futuros bons

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Categoria: Depoimentos

Por Sylvia Loeb*

Quando Aninha Wilheim me convidou para escrever  no site do Jorge, fiquei feliz.  Seria um modo de falar com ele novamente, de mitigar as saudades, de ouvir sua voz e recuperar o olhar e a escuta do amigo.

Escutar é uma função complexa, vai além do ouvir, que é a capacidade de nosso aparelho auditivo, se estiver em boas condições, de sensibilidade à recepção de sons. Diferentemente do ato de escuta, que implica em atenção, em interesse no que o outro tem a dizer, em se colocar como verdadeiro interlocutor, livre de ideias preconcebidas, aberto para colher pensamentos, sentimentos, projetos que não apenas os próprios. Capacidade rara, talento generoso o do Jorge ao deixar o outro com a sensação de que aquela foi uma boa conversa, de onde todos saímos mais enriquecidos. Qualidade incomum hoje em dia, onde cada qual está mais voltado para si mesmo. Os selfies atestam essa tendência narcísica, onde a própria imagem é motivo do maior júbilo.

Jorge dominava a arte da conversação, gostava de bater papo sobre os mais variados assuntos, de literatura às novelas de televisão, passando pela filosofia, arte, música, política. Prazer na boa cachaça e bons vinhos, interessado no efeito das viagens, atento às mudanças  que novos cenários e novos povos pudessem produzir nos amigos.  Queria saber dos últimos filmes, torcedor fanático do Santos, apreciava a boa mesa, sob a batuta de Joana, companheira de toda uma vida.

Inteligência, simpatia, fino humor temperavam uma personalidade renascentista. Todas essas competências moldaram o humanista que foi, um  homem do mundo, aliando o melhor da educação de uma elite intelectual, a elegância e tolerância de um verdadeiro gentleman, e uma capacidade incomum de colocar-se no lugar do outro.

Tínhamos pontos de vista divergentes em alguns assuntos, principalmente em política, mas nunca consegui brigar com ele a respeito desse assunto, pois mesmo não concordando, não podia deixar de admirar a visão abrangente de suas posições. Sem falar na elegância do savoir faire do amigo que sabia, como ninguém, modular o tom da conversa.

Muitas vezes pensei que Jorge mostrava uma ingenuidade que, em minha opinião, não combinava com o intelectual que era, mas ele era um idealista, estava sempre, em suas próprias palavras, “fantasiando futuros bons”. Penso que achava que a realidade obedecia ao desenho das curvas, arquiteto que era, numa dança sem fim de compensações ascendentes e descendentes.

Acreditava no trabalho, na beleza, queria viver muito para poder projetar novas utopias. A ideia da morte o desagradava, principalmente pelo amor e curiosidade que tinha pela vida, tão cheia de percalços. De família longeva e genética surpreendente, Jorge estava em plena atividade, planejando amanhãs. Ir embora suscitava sentimentos de estar perdendo o melhor da festa. Sentia como injusta a ideia de fim.

Que voz importante seria a sua nesse momento de Brasil tão difícil, uma voz confiante diante dos desafios, animando amigos e companheiros para soluções criativas.

Uma frase sua, “se não agora, quando?” atesta a sabedoria de quem sempre levou o tempo em consideração.

Uma injustiça Jorge ter ido embora, não que a festa esteja tão imperdível, mas deixar os amigos, isto não estava combinado.

* Sylvia Loeb é psicanalista e escritora. 

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