Entrevista com Jorge Wilheim

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Categoria: Entrevistas

Jorge Wilheim (Trieste, 1928). Urbanista, arquiteto, administrador público, político e ensaísta, foi um dos principais urbanistas brasileiros. Se consolidou como um expressivo formulador, no Brasil, do planejamento estratégico e de um urbanismo para o novo século, visionário pragmático, sempre interessado nos grandes debates intelectuais. Nesta entrevista a Sylvia Loeb, publicada originalmente em setembro de 2013, Jorge revela sua personalidade bem humorada e otimista, seu cotidiano e muitos interesses para além das realizações profissionais.

 

Sylvia Loeb: Jorge, em primeiro lugar deixe-me confessar meu espanto. Você já chegou aos oitenta e cinco anos, não? Qual o segredo de sua jovialidade, bom humor, alegria de viver?

Jorge Wilheim: Estou de bem com a vida! Mas jovialidade também depende de circunstâncias (ninguém o é em um velório) e da sorte que tenho de conviver com amigos (as) que, com sua personalidade, estimulam meu bom humor.  Por outro lado sou otimista, vivo fantasiando futuros bons: sou das utopias e não das distopias...Este otimismo tem contudo um aspecto negativo: para não me decepcionar, nego realidades desagradáveis (por algum tempo, depois caio na real). É uma defesa emocional útil; mas não é uma qualidade.

SL:  Você é um profissional reconhecido internacionalmente. Gostaria, no entanto, que nos contasse um pouco além dessa faceta, pois essa parte é muito conhecida. Basta entrar na internet e somos brindados com páginas e mais páginas sobre sua atividade profissional, rica e variada. Você é muito antenado, sua área de abrangência vai da filosofia à musica, da literatura às artes plásticas, da política às novelas de televisão, do futebol à gastronomia. Qual a importância dessa gama de interesses em sua vida?

JW: Antenado...Sou muito curioso e fico entusiasmado quando descubro algo novo, quando me propõem  abordar e resolver um problema novo. Até gosto de folhear dicionários e me surpreender ao descobrir o significado de palavras desconhecidas...Sempre vivi em contato com livros e arte e estes realimentam a curiosidade. Além de que arquitetura, música, cinema têm muito em comum. Navego na horizontal porque acho que as coisas se interligam cada vez mais (defendo a tese de um neorrenascimento neste século). Em urbanismo me inclino mais para o antropológico do que para o estatístico. Percorrendo disciplinas diversas, embora seja enriquecedor, corro o risco de não me aprofundar o suficiente, pois, como dizem os americanos: “when you spray your butter too much it gets thinner”. Mas Castells tinha razão ao me denominar “renascentista”.

SL: Eu disse que não ia lhe perguntar da profissão, mas ela está tão entranhada em sua vida, que é impossível não tocar nesse assunto. Gostaria que pudesse falar um pouco sobre uma belíssima metáfora sua, “o banco da praça”, como a essência do espaço público. Nessa expressão poética, percebe-se a sensibilidade para o humano. Como isso matiza sua vida?

JW: Antes de ser metáfora, o banco é um fato! Ele está no parque do Mackenzie e ainda não recebi resposta para minha proposta de nele sentar uma vez por semana para informalmente bater papo com estudantes das primeiras séries sobre cidade e vida urbana. Diálogos socráticos...Quanto à metáfora, banco na praça é sair para fora, comunicar-se, expor-se e ser sensível ao mundo exterior; viver com os outros e com uma paisagem. Enfim:  respirar o ar da cidade que, como se dizia na Idade Média, libera.

SL: Você mora no mesmo lugar há mais de 50 anos, numa pequena rua sem saída. O projeto da casa é seu mesmo? Sei que a casa foi crescendo organicamente. Poderia nos falar um pouco sobre isso?

JW: O projeto da casa que alugamos em 1957 não era meu. Mas o das 16 reformas seguintes sim ! Inclusive o telhado normando que resultou da necessidade de substituir um forro que estava caindo por uma laje de cobertura (sobre a qual decidi pisar, criando meu espaço na mansarda...). No começo havia crianças pequenas, dentro e fora de casa: a rua era um playground; além do inevitável futebol, fizemos teatro de fantoches, fogueira de São João e cinema ao ar livre! E, numa “transgressão cidadã”, plantei todos os paus ferro e sibipirunas que hoje dão charme à ruazinha. Ruas sem saída podem ser uma delícia...Desta vivência nasceu uma proposta, “uma árvore quatro vilas”: é fácil criar esses ambientes; é só plantar no cruzamento uma bela árvore que impeça o trânsito e estaremos criando quatro ruas sem saída! Luisa Erundina começou a implanta-la, mas não houve continuidade. Quanto à minha casa, quando dela saíram emancipados meus filhos, passou por sucessivas reformas, incluindo um consultório para Joanna, minha mulher (meu escritório foi para a casa ao lado) e com mais espaço para livros e quadros, sendo que adquiriram importância maior o estar, a lareira, a TV e especialmente a mesa para jantares saborosos com amigos: a mesa é o melhor lugar para bater papo , não é?

SL: Você, é extremamente solicitado: entrevistas, televisão, família, afora o trabalho no escritório. Como é o seu tempo de lazer? Consegue ter algum durante o dia a dia, ou reserva tudo para o final da semana? Pergunto isso, ainda atrás do segredo da sua juventude.

JW: Não há segredo, mas herdar um bom DNA ajuda...Meu relógio interno me desperta às 7 e obriga-me a levantar, pois a primeira hora é dedicada ao corpo: fisioterapia ou caminhada no Parque da Agua Branca. Caminhar lá me é prazeroso. Gosto muito do que faço no trabalho, inclusive dos papos que levo com as jovens que colaboram comigo no escritório. Separo a manhã da tarde com um bom almoço e belo vinho, seguido de uma hora de cochilo em poltrona. Mas perfaço as 8 horas diárias de trabalho.  À noite adoro ir ao cinema ou a algum concerto, mas a TV me propicia eventualmente uma novela mais dramática ou um bom jogo de futebol, vôlei ou tênis. Sou “peixe”, isto é torcedor do Santos, desde os anos 60 quando ia ao Pacaembu assistir Pelé jogando!  Leio nos interstícios; na adolescência a leitura era obsessiva. Apago a luz da cama à meia-noite. Algo careta, não?

SL: Como encara o fato de ter oitenta e cinco anos? Qual a importância, ou o peso, se existir, no seu cotidiano?

JW: 85...Há um problema: os projetos urbanísticos que elaboro tem geralmente um tempo de maturação de uns 15 anos. Estou sendo lembrado o tempo inteiro de que provavelmente não verei o resultado do que hoje projeto... O trem bala operará depois de 2020: será que, aos 100, chegarei a pegar esse trem? Não me agrada nada nada ter que conviver com a noção de limite do meu tempo. Minha vida não se “completou” (se é que ela deva se completar)... Ainda fantasio futuros.

SL: Depressão, medo, desânimo, falta de energia. Você conhece esses estados de ânimo? Como lida com eles, se e quando o acometem?

JW: Não há desânimo, a vida me vai levando numa boa. Minha irmã está bem firme aos 89. Porém não estou preparado para ir-me para sempre! Acho esta ameaça de finalização da vida absolutamente injusta. É muito cedo... Viver é bom demais! E está acontecendo tanto fato novo, provocando emoções e pensamentos! E filhos e netos e um dia bisnetos. Como largar isto? Não gosto da rapidez com que o tempo anda passando!

SL: Não pensa em se aposentar?

JW: Não vejo por que... Gosto de meu trabalho. Não tenho, por ora, nenhum empecilho físico ou mental. Mas por vezes sinto-me preguiçoso e cada vez mais, ao encarar a possibilidade de uma diversão, de uma viagem, de cabular o escritório, de subir à casa de Campos do Jordão já na sexta-feira, surge a frase: “se não agora, quando ?”

* Entrevista publicada originalmente no Blog Fifties, de Sylvia Loeb.

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